O setor continua avançando, mas a desaceleração registrada em 2025 mostra um consumidor mais criterioso. Para marcas, varejistas e fabricantes, a oportunidade está em transformar produtos em soluções reais para a rotina dos animais e de seus tutores.
O mercado pet brasileiro encerrou 2024 com R$ 75,4 bilhões em faturamento, crescimento de 9,6% em relação a 2023, segundo os dados consolidados divulgados pela Associação Brasileira das Empresas do Setor de Animais de Estimação, a Abempet.
Os dados mais recentes disponíveis indicam que o setor se aproximou de R$ 78 bilhões em 2025. A estimativa apresentada no terceiro trimestre apontava faturamento de aproximadamente R$ 77,9 bilhões, com crescimento próximo de 3,4%.
O setor, portanto, continuou crescendo, mas em uma velocidade menor.
Essa desaceleração não representa o desaparecimento das oportunidades. Ela mostra que o mercado entrou em uma etapa mais exigente: o número de empresas aumentou, o consumidor está mais atento aos preços e somente pertencer ao “universo pet” já não é suficiente para garantir vendas.
Para conquistar espaço, será necessário compreender onde o consumo acontece, o que o tutor passou a valorizar e quais problemas ainda não estão sendo bem resolvidos.
Crescimento menor exige uma leitura mais cuidadosa
O crescimento de aproximadamente 3,4% estimado para 2025 foi o menor registrado pelo setor desde 2019. Inflação, câmbio, juros, carga tributária e desaceleração do consumo contribuíram para esse resultado.
Isso significa que parte importante do aumento nominal do faturamento veio dos preços, e não necessariamente de um crescimento proporcional no volume de produtos vendidos.
O pet food continua sendo o principal motor do mercado. A projeção mais recente indicava faturamento de R$ 41,4 bilhões em 2025, equivalente a 53,1% do total. Entretanto, a estimativa de crescimento dessa categoria foi de apenas 1,5%.
Produtos e serviços veterinários, por outro lado, apresentaram uma perspectiva de avanço maior, próxima de 6,7%. Essa diferença mostra que o tutor procura preservar aquilo que considera essencial para saúde, cuidado e bem-estar, mesmo quando precisa controlar outros gastos.
Para fabricantes e varejistas, a mensagem é clara:
O mercado pet permanece sólido, mas o consumidor está selecionando melhor onde coloca seu dinheiro.
O pet está presente na rotina das famílias
De acordo com dados da Abempet e do IBGE, o Brasil possui, em média, 1,8 animal de estimação por residência.
Essa presença ajuda a explicar por que o setor mantém relevância mesmo em períodos econômicos mais difíceis. O pet não é atendido apenas em uma compra ocasional: ele participa da alimentação, dos passeios, dos momentos de lazer, da rotina doméstica e das decisões familiares.
Essa proximidade também modificou o padrão de exigência.
O tutor passou a observar com mais atenção:
- origem e qualidade dos materiais;
- segurança durante o uso;
- adequação ao porte e comportamento do animal;
- facilidade de limpeza;
- resistência;
- utilidade real;
- relação entre preço e durabilidade;
- responsabilidade da marca.
O desafio das empresas é transformar esses critérios em produtos e argumentos fáceis de compreender.
Não basta afirmar que determinado item é “feito para pets”. É preciso demonstrar qual função ele cumpre e em qual momento da rotina ele faz diferença.
Quase metade do mercado passa pelos pequenos e médios pet shops
Um dos dados mais relevantes para quem busca oportunidades está na distribuição das vendas.
Pet shops pequenos e médios representaram aproximadamente 48,1% do movimento do varejo pet em 2025, com faturamento estimado em R$ 37,5 bilhões. Clínicas e hospitais veterinários apareceram em seguida, com 17,5%, enquanto as grandes redes responderam por cerca de 9,6%.
O resultado mostra que o mercado brasileiro continua fortemente descentralizado.
Embora as grandes redes tenham alcance e capacidade de investimento, o pet shop de bairro mantém vantagens importantes:
- proximidade com o tutor;
- conhecimento dos animais atendidos;
- confiança construída no contato diário;
- capacidade de recomendar produtos;
- relacionamento local;
- atendimento mais pessoal.
Para pequenas e médias lojas, a oportunidade não está em tentar reproduzir o catálogo de uma megastore. Está em fazer uma seleção mais inteligente e oferecer orientação.
Um portfólio menor, formado por produtos bem escolhidos, pode gerar mais valor do que centenas de opções sem explicação.
O varejo precisa vender soluções, não apenas prateleiras
Em um mercado com crescimento mais moderado, excesso de estoque se torna um risco. Isso aumenta a importância de escolher produtos com uma função clara e argumentos comerciais simples.
Antes de incluir um item no portfólio, o varejista pode fazer cinco perguntas:
1. Qual problema esse produto resolve?
Ele estimula a interação, ajuda a reduzir o tédio, favorece o exercício, oferece enriquecimento ambiental ou torna o passeio mais seguro?
2. Para qual animal ele é indicado?
O produto é adequado ao porte, à idade e ao comportamento daquele pet?
3. Como deve ser utilizado?
A equipe da loja consegue explicar corretamente o uso, os cuidados e a necessidade de supervisão?
4. Qual é o seu diferencial?
Material, fabricação nacional, formato, cores, resistência e possibilidade de reposição precisam ser apresentados de maneira objetiva.
5. Por que o tutor voltaria à loja?
Um bom produto pode iniciar uma relação. O atendimento, a orientação e a variedade complementar fazem essa relação continuar.
Essa abordagem transforma o vendedor em alguém capaz de orientar uma escolha, e não somente informar o preço.
Brinquedos ocupam uma posição estratégica
Alimentação e saúde concentram a maior parcela do faturamento, mas os brinquedos exercem uma função diferente na experiência de compra.
Eles são visualmente atrativos, permitem demonstrações, ajudam a criar conteúdo para redes sociais e se conectam diretamente aos momentos de interação entre tutores e animais.
Um brinquedo também pode servir como porta de entrada para outras categorias. O consumidor que entra na loja procurando uma bolinha, uma corda ou um produto para enriquecer a rotina do cachorro pode conhecer itens de passeio, higiene, alimentação e segurança.
Para aproveitar essa oportunidade, o varejista precisa evitar dois erros:
- tratar todo brinquedo como adequado para qualquer animal;
- disputar somente pelo menor preço.
A seleção deve considerar material, tamanho, proposta de uso e comportamento do pet. Além disso, é importante orientar que brinquedos devem ser utilizados de acordo com sua finalidade e com supervisão responsável, especialmente quando houver sinais de desgaste.
Segurança e confiança ganham importância
Quanto maior a integração do animal à família, menor é a tolerância do tutor com produtos sem informações claras.
Isso cria espaço para marcas que consigam demonstrar:
- conhecimento sobre o uso do produto;
- materiais apropriados;
- controle de produção;
- consistência de qualidade;
- comunicação responsável;
- suporte ao varejista.
É nesse movimento que empresas brasileiras com produção própria podem ganhar relevância. A proximidade entre fabricante e ponto de venda facilita o acesso às informações, a reposição e a construção de um portfólio adaptado ao consumidor nacional.
A Zumbidog, por exemplo, participa desse cenário com uma linha de brinquedos e acessórios desenvolvida no Brasil e orientada para diversão, interação e segurança na rotina dos cães. Mais do que ocupar espaço na prateleira, a proposta é oferecer ao varejista produtos que possam ser explicados e associados a situações reais de uso.
Essa presença discreta da indústria no relacionamento com a loja pode fazer diferença. Quando o vendedor conhece o produto, consegue recomendar com mais segurança. Quando o tutor compreende a aplicação, tende a enxergar mais valor na compra.
O digital cresce, mas a especialização continua vencendo
O comércio eletrônico já faz parte da jornada de compra pet, porém os dados mostram que a especialização permanece importante também no ambiente digital.
Entre as vendas online do setor, os pet shops virtuais especializados representaram aproximadamente 37% do faturamento em 2025, à frente das lojas virtuais das grandes redes, que concentraram cerca de 32,8%. As operações digitais dos pequenos e médios pet shops responderam por pouco mais de 20%.
Isso demonstra que o consumidor não procura somente conveniência. Ele também valoriza variedade relevante, explicação e confiança.
Para competir no digital, uma loja não precisa necessariamente oferecer milhares de itens. Precisa apresentar melhor os produtos que escolheu.
Uma página eficiente deve informar:
- indicação do produto;
- dimensões;
- material;
- benefícios;
- cuidados durante o uso;
- imagens claras;
- demonstração prática;
- orientação sobre o perfil do animal.
Vídeos curtos mostrando o produto em uso podem ser mais eficientes do que descrições genéricas. A comunicação precisa ajudar o consumidor a imaginar como aquele item fará parte da rotina do pet.
Onde estão as oportunidades
Os dados indicam pelo menos cinco caminhos promissores.
Produtos ligados ao bem-estar
Itens que ajudam a tornar a rotina mais ativa, segura e interessante têm espaço, desde que apresentem uma função compreensível.
Fortalecimento dos pet shops independentes
Pequenos e médios varejistas continuam movimentando quase metade do mercado. Fornecedores que oferecem informação, materiais comerciais e reposição podem construir relações mais duradouras com esse canal.
Conteúdo educativo
Muitas lojas possuem produtos, mas ainda explicam pouco sobre eles. Marcas capazes de ensinar o vendedor e o consumidor podem ganhar confiança e diferenciação.
Integração entre loja física e digital
O atendimento pode começar nas redes sociais, continuar no WhatsApp e terminar na loja. Fotos, vídeos e orientações ajudam o varejista local a competir sem perder sua principal vantagem: a proximidade.
Indústria nacional
A produção brasileira pode contribuir com comunicação mais próxima, conhecimento do mercado local, prazos mais previsíveis e desenvolvimento de produtos conectados à realidade dos tutores do país.
O mercado cresce, mas exige mais consistência
Chegar perto de R$ 78 bilhões confirma a relevância econômica do universo pet. Entretanto, o crescimento mais lento de 2025 também funciona como um alerta.
A nova fase não será vencida apenas por empresas que adicionarem a palavra “pet” às embalagens ou ampliarem indiscriminadamente seus catálogos.
As melhores oportunidades estarão com marcas, lojas e fabricantes que conseguirem unir três elementos:
produto adequado, informação clara e confiança.
O pet shop continuará tendo um papel importante porque conhece o consumidor local. A indústria continuará relevante porque transforma necessidades em produtos. E as marcas que aproximarem esses dois lados estarão mais preparadas para crescer de maneira sustentável.
No mercado pet, vender um produto é apenas o começo. O verdadeiro valor está em ajudar o tutor a fazer uma escolha melhor para a rotina de quem já faz parte da família.